Mensagens interceptadas pela Polícia Federal revelam esquema do dono do Banco Master para silenciar colunista do jornal O Globo
Diálogos apreendidos pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero trouxeram à tona uma trama arquitetada pelo empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em parceria com o publicitário Thiago Miranda, para neutralizar o trabalho investigativo da jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo. A ofensiva incluiu vasculhamento minucioso da vida privada da repórter e uma proposta milionária com o objetivo claro de comprá-la.
Espionagem pessoal fracassou completamente
O início da investida contra Malu Gaspar foi traçado entre março e abril de 2025. Daniel Vorcaro demonstrava irritação crescente com as reportagens que expunham fragilidades financeiras e movimentações suspeitas do Banco Master junto ao Banco Regional de Brasília (BRB). Em uma das mensagens interceptadas, o empresário deu uma ordem direta a Thiago Miranda: “vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal”. O publicitário, por sua vez, prontificou-se a “revirar a vida dela” em busca de qualquer vulnerabilidade.
A estratégia, entretanto, naufragou. Conforme apurado pela Polícia Federal, a dupla escavou registros bancários, pontuações de crédito (score) e processos judiciais antigos da colunista — alguns datando de 1992. Sem encontrar nenhuma irregularidade, o próprio Thiago Miranda ironizou a situação ao constatar que não achou “nem multa na CNH dela”.
Oferta de emprego como tentativa de silenciamento
Frustrados com o monitoramento ilegal, Vorcaro e Miranda alteraram a abordagem. No dia 8 de abril de 2025, os dois elaboraram um plano para contratar a jornalista e tirá-la de circulação nos veículos em que atuava. A oferta detalhada consistia em uma “luva” de R$ 1,5 milhão e salário mensal de R$ 120 mil. Thiago Miranda afirmou ao banqueiro que marcaria uma conversa com Malu Gaspar.
O portal Fatos Online revelou originalmente a estratégia completa de “compra do silêncio”. Entre os arquivos apreendidos pela PF, consta uma “Carta Proposta Malu Gaspar”, documento formal assinado por Thiago Miranda e Ivan Oliveira, respectivamente CEO e COO do Grupo Leo Dias de Comunicação. O plano previa que a colunista apresentasse um programa diário de economia na Leo Dias TV, veículo controlado pelos sócios.
O objetivo central era simples: afastar Malu Gaspar dos jornais onde trabalhava para encerrar as denúncias sobre o Banco Master.
Efeito contrário e a declaração sobre “sangrar”
A investida de Daniel Vorcaro produziu resultado oposto ao pretendido. Em mensagens posteriores à proposta, o próprio empresário relatou que Malu Gaspar e também o jornalista Lauro Jardim retornaram “com mais fúria”, mantendo a imparcialidade e a intensidade das publicações jornalísticas.
Diante da resistência da colunista, Thiago Miranda insistiu na retomada da perseguição pessoal como “questão de honra”. A troca de mensagens é encerrada por Vorcaro com uma frase contundente: “Quer sangrar enquanto houver sangue”.
O Globo repudia ataque e Malu Gaspar reafirma compromisso
O jornal O Globo emitiu nota de repúdio categórica à devassa planejada contra sua colunista. O veículo classificou o episódio como um ataque direto à liberdade de imprensa, evidenciando o modus operandi de organizações criminosas. A publicação afirmou que seus profissionais não se deixarão intimidar e continuarão exercendo a função de informar, finalizando com a ênfase de que “os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor”.
Nas redes sociais, a jornalista Malu Gaspar se pronunciou destacando que permanece onde sempre esteve e sempre estará: “fazendo jornalismo e levando minha vida comum e muito feliz, fiel aos meus princípios”, pontuou.
Investigação segue no âmbito da Operação Compliance Zero
O caso está sob investigação criminal nos desdobramentos da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal com autorização judicial do Supremo Tribunal Federal (STF). A operação apura fraudes no sistema financeiro, entre outros crimes.
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