Sentenças capitais foram aplicadas em casos distintos ligados a manifestações que sacudiram Isfahan no início de 2025
Organizações internacionais de direitos humanos denunciaram nesta segunda-feira, 31, que o Irã condenou à morte duas mulheres acusadas de participar dos protestos antigovernamentais que eclodiram no país no começo deste ano. As sentenças foram proferidas em processos separados, porém ambos relacionados a episódios ocorridos em Isfahan, cidade que se tornou um dos epicentros da mobilização nacional, com pico entre 8 e 9 de janeiro.
Quem são as condenadas
Uma das condenadas é Taraneh Rahimi, de 20 anos. Segundo o grupo Hengaw, sediado na Noruega, e a ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA), com sede nos Estados Unidos, ela foi sentenciada por envolvimento em incidentes em uma praça que resultaram na morte de duas pessoas — entre elas, um integrante das forças de segurança. Outros réus no mesmo caso receberam penas de até 36 anos de prisão. Entre eles está a própria irmã de Taraneh.
“Os advogados dos acusados não obtiveram acesso a uma parte importante do processo e contestaram por não ter sido concedido tempo suficiente para revisar os documentos e as provas”, afirmou a HRANA.
A segunda mulher condenada é Leila Abolhasani, de 43 anos. A acusação formal contra ela é de ter incendiado uma loja. No entanto, familiares sustentam que Leila apenas filmava o estabelecimento já em chamas, conforme relatado pelo observatório jurídico Dadban e pela HRANA. Abolhasani foi condenada pelo crime de “fazer guerra contra Deus”, cuja pena prevista é a morte. O caso seguiu para o Supremo Tribunal para revisão.
Nenhuma mulher havia sido executada até agora
De acordo com a ONG Iran Human Rights (IHR), também sediada na Noruega, o Irã já executou 29 homens por acusações ligadas aos protestos. Até o momento, nenhuma mulher foi executada por esse motivo, o que torna as novas sentenças especialmente alarmantes para a comunidade internacional de direitos humanos.
A onda de protestos que abalou o regime iraniano
Os protestos tiveram início no final de dezembro passado e se estenderam até o fim de janeiro. O estopim foi o colapso da economia iraniana e a desvalorização acentuada da moeda nacional, o rial, que perdeu quase 50% do seu valor frente ao dólar ao longo de 2025, atingindo uma baixa histórica. À medida que a repressão do governo se intensificava, os atos passaram a assumir um caráter mais amplo, convertendo-se em um movimento de contestação direta ao regime teocrático que governa o país desde 1979.
Imagens e depoimentos obtidos durante o auge das manifestações indicam que o governo iraniano promoveu uma das repressões mais violentas das últimas décadas. Testemunhas descreveram o uso de armas automáticas contra manifestantes desarmados, além de prisões em larga escala. Grupos de direitos humanos relataram que algumas pessoas detidas foram submetidas a tortura, incluindo espancamentos e estupros.
Números da repressão
A HRANA afirmou, em janeiro, ter confirmado a morte de 5.848 pessoas, entre as quais 209 integrantes das forças de segurança. O número de detidos chegou a pelo menos 41.283 pessoas, segundo o grupo.
As autoridades iranianas, por sua vez, acusam os organizadores dos protestos de terrorismo e de vínculos com governos estrangeiros. O governo do Irã reconhece 3.117 mortes, classificando a maioria das vítimas como integrantes das forças de segurança ou transeuntes inocentes mortos por “vândalos”.
(Com informações da AFP)
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