Estudo da Confenen revela impacto bilionário da redução de jornada sobre o setor educacional privado
Um levantamento encomendado pela Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenen) projeta que o fim da jornada 6×1 — uma das principais bandeiras eleitorais do presidente Lula — pode elevar as mensalidades escolares em até 23% no próximo ciclo letivo. O número combina o repasse estimado da reforma, que varia entre 8% e 11%, com o reajuste anual já previsto pelas instituições, situado entre 9% e 12%.
A proposta ganhou impulso nesta quinta-feira, quando o senador Omar Aziz (PSD-AM), relator na Comissão de Constituição e Justiça, apresentou parecer favorável ao texto aprovado pela Câmara dos Deputados, rejeitando as 12 emendas apresentadas.
Até 600 mil alunos podem deixar escolas privadas
O impacto financeiro sobre as famílias brasileiras vai além do aumento percentual das mensalidades. De acordo com o estudo, a combinação entre encarecimento da educação privada e a já elevada carga tributária reajustada durante o mandato de Lula deixará muitas famílias sem condições de manter seus filhos em colégios particulares.
O resultado direto seria a migração de até 600 mil alunos para a rede pública de ensino, pressionando estados e municípios. Em cenários mais severos, esse número pode alcançar 720 mil novas matrículas públicas.
Questão técnica define o tamanho do impacto
O levantamento reconhece a legitimidade da pauta de redução de jornada, mas destaca que o impacto real sobre o setor depende de um detalhe crucial na redação legislativa: se o segundo dia de descanso da escala 5×2 será classificado como folga compensatória — prática já adotada há décadas por comerciários, bancários e profissionais administrativos — ou como segundo repouso semanal remunerado.
No caso dos professores horistas, essa distinção altera diretamente o cálculo salarial e pode gerar custos muito superiores aos previstos inicialmente.
Três cenários projetados pelo estudo
Cenário conservador: R$ 9,3 bilhões por ano
“Na leitura mais favorável à reforma, com jornada reduzida de 44 para 40 horas semanais sem reflexo no descanso semanal remunerado (DSR), o impacto sobre a folha da educação privada seria de aproximadamente 9,3%, equivalente a R$ 9,3 bilhões por ano — ou R$ 25 por aluno por mês. O cenário admite ganho de produtividade horária de 2% no magistério e considera o impacto absorvível pela maioria das instituições, com repasse moderado às mensalidades.”
Cenário central: R$ 17,3 bilhões por ano
“No cenário apontado pelo estudo como o mais provável caso o texto não receba salvaguarda específica, o segundo dia de descanso seria qualificado como repouso remunerado para professores horistas — que respondem por cerca de 55% da folha docente do setor. Nesse caso, o cálculo do DSR passaria de 1/6 para 2/5, elevando em 20% o custo do pacote salarial do professor horista antes de qualquer outro mecanismo. O impacto total sobre a folha seria de 17,3%, ou R$ 17,3 bilhões por ano (R$ 47 por aluno por mês) — valor que, segundo o estudo, excede a margem operacional da maioria das instituições e força repasse de preços, redução de oferta e fechamento de unidades nos segmentos mais expostos.”
“O ensino superior privado é o segmento mais atingido. A grande maioria do quadro docente é horista, com remuneração calculada por aulas semanais e múltiplos vínculos — a fração horista frequentemente ultrapassa 80%. Com o DSR amplificado, o impacto agregado sobre a folha do ensino superior privado alcança 22% a 28% no cenário central. Segundo o estudo, esse é o segmento que tende a responder de forma defensiva: fechamento de cursos noturnos, fragmentação de contratos e migração de professores para o regime de pessoa jurídica — movimento que pode reduzir a oferta de vagas justamente no turno que atende trabalhadores.”
“A esse impacto recorrente soma-se um passivo de litigância retroativa estimado em R$ 15 bilhões, decorrente de ações trabalhistas dos últimos cinco anos por professores que já trabalham em escala 5×2. O valor equivale a uma média de R$ 320 mil por escola — superior ao patrimônio líquido de uma fração relevante das pequenas escolas familiares.”
Cenário adverso: R$ 31,6 bilhões por ano
“No cenário mais severo, compatível com a qualificação plena dos dois dias como repouso remunerado, jornada de 36 horas semanais e cobertura completa das horas-aula, o impacto alcançaria 31,6% da folha, ou R$ 31,6 bilhões por ano (R$ 85 por aluno por mês). Nesse cenário, o estudo projeta descontinuidade de oferta em escolas de menor margem no horizonte de dois a três anos.”
Como o custo chega ao bolso das famílias
“O impacto sobre custos propaga-se por três caminhos: repasse para a mensalidade, compressão da margem das escolas e redução de oferta nas instituições menores. No cenário central, o repasse necessário para preservar a margem situa-se entre 8% e 11% da mensalidade — R$ 50 a R$ 90 a mais por mês para uma família de classe média baixa em escola popular (mensalidade média de R$ 800) e R$ 250 a R$ 450 para famílias em escolas premium (mensalidade média de R$ 4.500).”
“Esses percentuais, porém, não incluem o reajuste anual das mensalidades, já estimado entre 9% e 12%. Somados, reforma e reajuste anual podem levar o reajuste médio das mensalidades a até 23% no próximo ciclo escolar.”
“Como a demanda por educação privada reage fortemente a aumentos de preço (elasticidade estimada entre -0,3 e -0,9), o estudo projeta evasão de 5% a 8% nas escolas populares e de 2% a 3% nas premium — o equivalente a entre 450 mil e 720 mil novas matrículas na rede pública. Com custo médio por aluno-ano de R$ 7.500 no ensino fundamental e R$ 10.000 no ensino médio, a migração geraria ônus fiscal compensatório de R$ 4 a R$ 6 bilhões por ano, transferido majoritariamente a estados e municípios.”
Análise do texto em tramitação no Senado
“O estudo aponta que o texto aprovado pela Câmara e mantido pelo relator reduz a jornada máxima para 40 horas e garante dois dias de repouso semanal remunerado sem redução salarial, mas não distingue claramente a redução da jornada da redefinição do DSR.”
“Para a Confenen, a qualificação do segundo dia como repouso remunerado criaria uma assimetria regulatória: o professor horista passaria a receber 2/5, enquanto os demais trabalhadores em escala 5×2 continuariam com 1/6 — abrindo espaço para litigância cruzada entre categorias.”
Confenen pede cláusula de salvaguarda
A entidade defende a inclusão de uma cláusula que preserve a interpretação da Súmula 351 do TST para o exercício do magistério. A proposta não visa alterar a Súmula nem a CLT, priorizando a negociação coletiva como instrumento de regulação.
“Não estamos pedindo menos descanso para professores, apenas equiparação ao tratamento já conferido a mais de 30 milhões de brasileiros que trabalham em escala 5×2”, afirma a entidade.
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