Carteira de crédito rural do banco estatal registra atrasos recordes, mas executivos veem sinais de estabilização
O índice de inadimplência nas operações de agronegócio da Caixa disparou para 20,74% ao final de junho de 2026. O patamar é praticamente três vezes superior ao registrado um ano antes, quando os atrasos acima de 90 dias correspondiam a 7,02% do saldo da carteira. Trata-se do maior percentual de calote entre todos os segmentos de crédito do banco estatal.
Comparação com outros segmentos revela discrepância
A carteira total da Caixa soma R$ 1,4 trilhão. Enquanto o agronegócio apresenta inadimplência de 20,74%, os demais ramos mostram números bem mais contidos. O segmento imobiliário, o maior do banco com R$ 1 trilhão em saldo, tem inadimplência de apenas 1,45%. Na área de infraestrutura, com R$ 110,5 bilhões, o índice é de mínimos 0,03%. Já o crédito comercial, que soma R$ 270,4 bilhões, registra 9,32% de atrasos.
Evolução trimestral e perspectiva de estabilização
Entre março e junho de 2026, a deterioração perdeu ritmo. No primeiro trimestre, os atrasos estavam em 18,29%, o que significa uma variação menor na passagem para os 20,74% atuais. O vice-presidente de finanças e controladoria da Caixa, Marcos Brasiliano Rosa, avalia que o pior já passou.
“Nós já olhamos para essa curva com uma estabilidade, com perda de velocidade”, disse Brasiliano após a apresentação dos resultados consolidados do primeiro semestre do ano. “Agora, eu olho para essa carteira já como uma oportunidade, por conta de todo o cenário, medida provisória [MP 1.376/2026], possibilidade de a gente ir lá negociar esses créditos e atender o nosso cliente que está hoje com alguma dificuldade”, completou.
Saldo da carteira rural e movimentação recente
O saldo da carteira de agronegócios da Caixa atingiu R$ 62,3 bilhões em junho de 2026, alta de 3% na comparação com o mesmo período de 2025. Na comparação trimestral, porém, houve recuo de 4% em relação a março de 2026.
MP 1.376/2026 e a renegociação das dívidas rurais
O vice-presidente de varejo da Caixa, Adriano Matias, afirmou que a publicação da MP 1.376/2026 contribuiu para melhorar a “qualidade” do crédito já em julho. Entretanto, ele ressaltou que a operacionalização das renegociações teve início apenas na semana passada. Segundo Matias, abril foi o “pior mês” para a inadimplência do crédito rural, mas a curva de pagamentos em dia voltou a crescer em maio “devido à maior clareza em relação ao que viria ser a medida provisória 1.376”.
Ele informou ainda que todos os clientes já foram abordados para negociar a reestruturação de suas dívidas.
Caixa ficou de fora dos recursos equalizáveis do Tesouro
A Caixa não foi contemplada na distribuição de saldos equalizáveis destinados à renegociação de dívidas rurais por meio da medida provisória. Há duas semanas, o Tesouro Nacional alocou R$ 25,8 bilhões em limites para dez instituições financeiras. Essas instituições poderão renegociar operações com equalização federal, mecanismo que cobre a diferença nos juros mais baixos oferecidos aos produtores na ponta.
Alternativa via recursos obrigatórios
Diante da exclusão, o banco estatal deverá apostar no uso de recursos obrigatórios, provenientes do direcionamento dos depósitos à vista. Nesta semana, o Conselho Monetário Nacional (CMN) flexibilizou as regras e passou a permitir a utilização desses recursos em operações de renegociação de dívidas originalmente contratadas com outras fontes. A exceção ficou por conta dos fundos constitucionais e do Funcafé.
Provisões para perdas saltam com a escalada dos atrasos
O crescimento da inadimplência no agronegócio obrigou a Caixa a elevar substancialmente as provisões para perdas associadas ao risco de crédito, conforme determina a resolução 4.966/2021 do CMN. O índice de provisão da carteira rural saiu de 6,8% em junho de 2025 para 13,2% em março de 2026, alcançando 16,5% no encerramento do primeiro semestre deste ano.
Do saldo total de R$ 62,5 bilhões, cerca de R$ 17 bilhões encontram-se no estágio 3 de risco de crédito, o mais severo. Desse montante, R$ 9 bilhões — o equivalente a 56,4% — já estão provisionados para perdas.
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