Justiça britânica classifica decisão de Toffoli como ‘altamente incomum’ e mantém provas da Lava Jato no Reino Unido

 

Tribunal de Southwark rejeita anulação do STF e preserva bloqueio de R$ 45 milhões em contas de ex-engenheiro da Petrobras


Cerca de R$ 45 milhões em contas bancárias no Reino Unido permanecem congelados por determinação de um juiz do Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres. O magistrado Mark Weekes decidiu que as autoridades britânicas têm legitimidade para seguir utilizando provas da Operação compartilhadas com o Escritório de Fraudes Sérias (SFO, na sigla em inglês), mesmo após o ministro Dias , do Supremo Tribunal Federal (STF), ter anulado a base jurídica desse compartilhamento no Brasil.

O estranhamento do juiz britânico com a decisão de Toffoli

O despacho de Weekes, proferido em maio, ganhou repercussão pública após ser revelado pelo site Global Investigations Review. No documento, o juiz britânico expressou de forma enfática sua surpresa com a postura adotada pelo STF.

“Vale observar que essa situação — uma autoridade judiciária no Estado requerido revogando, posteriormente e de forma ostensiva, o fundamento jurídico interno para o compartilhamento que, à época, havia sido legitimamente feito — é, na experiência deste tribunal, no mínimo, altamente incomum”, escreveu o magistrado.

Weekes também afirmou que o material obtido pelo SFO foi recebido dentro dos trâmites legais e de boa-fé. “Em circunstâncias nas quais o material foi fornecido ao SFO e por ele recebido de boa-fé e em conformidade com o tratado […], não nos convenceu o argumento de que a intenção do SFO de continuar a basear-se em tal material constitui abuso do processo judicial”, concluiu.

Quem é Mario Ildeu de Miranda e o que está em jogo

As contas congeladas pertencem ao ex-engenheiro da Mario Ildeu de Miranda. Os valores bloqueados somam aproximadamente US$ 7,7 milhões e 700 mil libras esterlinas — o equivalente a cerca de R$ 40 milhões e R$ 4,9 milhões, respectivamente.

Miranda foi condenado em fevereiro de 2019 pela 13ª Vara Federal de Curitiba, no âmbito da Lava Jato, por 37 acusações de lavagem de dinheiro. Inicialmente, recebeu de seis anos e oito meses de prisão, depois reduzida em grau de recurso para quatro anos e dez meses.

Cronologia do caso entre Brasil e Reino Unido

Em agosto de 2020, atendendo a um pedido do SFO, o Tribunal de Magistrados de Westminster ordenou o das contas de Miranda no Reino Unido. No ano seguinte, em 2021, a agência britânica encaminhou uma carta rogatória ao Brasil, solicitando assistência jurídica mútua. O pedido foi remetido à Justiça Federal em Curitiba e devidamente atendido.

O cenário mudou em dezembro de 2023, quando o STF anulou as condenações de Miranda, alegando que a vara de Curitiba não possuía competência para julgar o caso. Em março do ano seguinte, o ministro Dias Toffoli foi além: citando decisões do Supremo sobre a operação, declarou nula a decisão de 2021 que havia autorizado o envio de provas ao SFO.

Defesa de Miranda não se pronuncia

Procurada pelo site Poder360, a defesa de Mario Ildeu de Miranda informou que não irá se manifestar sobre o assunto neste momento.

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