Há uma velha piada sobre o sujeito que comemora o aumento de salário enquanto esconde o extrato do cartão de crédito. O governo federal faz exatamente isso — só que com o dinheiro de todos nós.
Receitas crescem dois dígitos, mas despesas crescem ainda mais — e ninguém parece disposto a pisar no freio
As contas do governo fecharam junho com um déficit de 48,2 bilhões de reais. É o pior resultado para o mês desde 2023, já descontada a inflação. É o segundo mês consecutivo no vermelho. E é, acima de tudo, a confirmação de um padrão que já não pode ser tratado como acidente: o país arrecada mais, mas torrra o dinheiro em velocidade ainda maior.
A arrecadação cresceu 10,3% em junho. Número robusto. Invejável, até. O problema é que as despesas, no acumulado do ano, já sobem 12,3% acima da inflação — quase o dobro do avanço das receitas.
Leia de novo: quase o dobro.
Se a receita sobe e o rombo cresce, não é preciso ser economista para entender o que está acontecendo. É gasto descontrolado. Simples assim.
A Previdência Social, como de costume, concentra a maior fatia do buraco. As despesas com benefícios superam de longe o que o sistema arrecada. É um problema estrutural que nenhum governo enfrenta de verdade — porque mexer na Previdência custa votos, e votos são a moeda de troca mais valiosa de Brasília.
Mas há um detalhe que torna o quadro ainda mais revelador.
Os investimentos públicos saltaram quase 66% no ano. Sessenta e seis por cento. Em ano eleitoral. Que coincidência extraordinária. Obras aceleradas, repasses turbinados, inaugurações de palanque — o roteiro é conhecido e se repete com a pontualidade de um relógio suíço, independentemente de quem ocupe o Planalto.
E é aí que a história complica.
Uma fonte de receita que ajudou a maquiar o caixa em 2025 — os dividendos pagos por estatais — praticamente secou. De quase 25 bilhões de reais no ano passado, despencou para pouco mais de 10 bilhões em 2026. O colchão sumiu, mas o ritmo de gastos não diminuiu um centavo.
No acumulado do primeiro semestre, o rombo alcança 92,2 bilhões de reais. É o pior resultado para o período desde a pandemia de 2020 — quando havia, ao menos, a justificativa de uma emergência sanitária global. Qual é a emergência agora?
Nos últimos 12 meses, o déficit acumulado chegou a 144,1 bilhões, equivalente a 1,08% do PIB. A meta oficial do governo para o ano, vale lembrar, prevê superávit de 0,25% do PIB. A distância entre a promessa e a realidade já não é uma fresta — é um abismo.
O economista Jason Vieira, da Lev Intelligence, resume o nó com precisão cirúrgica: a política fiscal segue atuando em sentido contrário à política monetária. Traduzindo: o Banco Central tenta esfriar a economia com juros altos enquanto o governo joga gasolina na fogueira com gastos crescentes. Um puxa para um lado, o outro puxa para o oposto. O resultado é previsível: ineficiência, custo elevado para a sociedade e credibilidade fiscal em queda.
O mercado financeiro não se surpreendeu com os números. Já esperava. E é justamente essa normalização do desequilíbrio que deveria preocupar. Quando investidores, nacionais e internacionais, passam a pressupor que o governo não vai cumprir sua meta fiscal, o problema deixa de ser contábil e se torna político.
A pergunta que ninguém em Brasília quer responder é simples: se a arrecadação cresce em ritmo forte e ainda assim o rombo aumenta, o que exatamente precisa acontecer para que alguém decida cortar gastos de verdade?
Ou será que a resposta já sabemos — e ela só virá depois das eleições?
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