Aliado de Moraes, Paulinho da Força pede impeachment de Mendonça, Kassio e Fux

 

Deputado protocola pedidos contra Mendonça, Kassio e Fux — justamente os ministros que integram a ala contrária a Alexandre de Moraes

Não é coincidência que chama a atenção. O deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), reconhecido como um dos parlamentares com maior proximidade com o ministro Alexandre de Moraes, protocolou no pedidos de impeachment contra três ministros do STF (Supremo Tribunal Federal): André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Os três compõem exatamente a ala adversária de Moraes na corte — um detalhe que dificilmente passa despercebido para qualquer observador da crise interna do tribunal.

Timing cirúrgico: pedidos coincidem com ofensiva contra Moraes

Dois dos três pedidos foram protocolados na terça-feira (29), na mesma data em que Paulinho acionou o ministro Flávio Dino para solicitar o afastamento de Nunes Marques e Mendonça de ações de de propaganda no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Os dois ministros ocupam, respectivamente, a presidência e a vice-presidência da corte eleitoral, responsável por acompanhar as eleições deste ano.

O pedido contra Mendonça, por sua vez, já havia sido protocolado antes, em 24 de setembro. Mendonça é relator do caso Master e tem liderado uma ofensiva contra Alexandre de Moraes em razão da relação do colega com o banqueiro Daniel Vorcaro. A reação do deputado é interpretada por analistas como mais uma frente da grave crise institucional que assola o STF — e levanta o questionamento inevitável: Paulinho age por convicção jurídica ou em defesa de seu aliado Moraes?

Acusações contra André Mendonça

No pedido de impeachment contra Mendonça, o presidente do Solidariedade acusa o magistrado de praticar crime de responsabilidade. Paulinho descreve a atuação do ministro como “parcial” e “com direcionamento político-eleitoral”, citando a “criação de eventos processuais que possam favorecer o grupo político com quem ele tem ligação”.

O deputado também menciona um aporte de R$ 5 milhões da Cedro Participações, do empresário Lucas Kallas, ao Instituto Iter, ligado a Mendonça. Kallas é apontado como sócio de Vorcaro. Paulinho cita ainda diálogos do banqueiro sobre um encontro com o ministro e decisões supostamente favoráveis do magistrado ao grupo empresarial de Vorcaro.

O caso Fux e a família do ministro

No pedido contra Luiz Fux, Paulinho da Força sustenta que o ministro não pode continuar julgando o caso Master. O deputado alega que Fux tem suspeição no assunto e procede “de modo incompatível com a honra, dignidade e decoro do cargo”.

O parlamentar trouxe à tona os contatos entre Rodrigo Fux, filho do ministro, e o banqueiro Vorcaro em novembro de 2024. Segundo o pedido, o banqueiro teria apresentado um recurso ao advogado às vésperas de um no STF. Tratava-se dos créditos da Agro Industrial Tabu, adquiridos por fundos de e que eram de interesse do Banco Master. O julgamento entraria no plenário virtual do STF apenas dois dias depois de Vorcaro acionar o filho do ministro.

Paulinho da Força também fez uma comparação que revela o viés de sua atuação. “Diferentemente da proatividade investigativa demonstrada pelo ministro André Mendonça contra seu desafeto, Alexandre de Moraes, na véspera das manifestações do 7 de setembro, não houve providência alguma em relação aos fatos envolvendo a família Fux”, apontou o deputado.

“Somente em junho de 2026, quando Vorcaro já estava preso, Fux votou contrariamente ao pedido, acompanhando os demais ministros, em decisão unânime”, reclamou Paulinho da Força.

Kassio Nunes Marques e as hospedagens de luxo

No caso de Kassio Nunes Marques, o deputado transcreve conversas de Vorcaro que indicariam custeio de hospedagens de luxo e eventos pelo banqueiro em benefício do ministro. Paulinho também menciona o suposto pagamento de R$ 500 mil para Kevin Marques, advogado e filho do atual presidente do TSE.

Senado trava pedidos de impeachment contra ministros

Embora o afastamento de ministros do STF seja competência do Senado, qualquer cidadão pode peticionar contra os magistrados apontando crime de responsabilidade. Os pedidos, contudo, precisam ser despachados pelo presidente da Casa e aprovados por 54 dos 81 senadores. Na prática, o senador Davi Alcolumbre (União-AP) tem sistematicamente travado os pedidos contra integrantes da Suprema Corte — o que significa que as petições de Paulinho têm poucas chances de prosperar, ao menos por ora. Resta saber, então, qual é o real objetivo: justiça ou pressão política em nome de um aliado?

O vínculo entre Paulinho e Alexandre de Moraes

A proximidade entre Paulinho da Força e Alexandre de Moraes não é segredo no meio político. O deputado é considerado um dos nomes do Congresso com melhor junto ao ministro. Quando atuou como relator do projeto de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro, Paulinho construiu o texto em diálogo com o magistrado e com demais ministros do STF.

O resultado foi emblemático: o que era uma anistia ampla foi aprovado como uma dosimetria, sem livrar da prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pela trama golpista. Na ocasião, Paulinho negou publicamente que Moraes — relator dos inquéritos sobre a tentativa de golpe de Estado e dos atos antidemocráticos — tenha participado da redação do texto. Nos bastidores, porém, aliados reconhecem que o contato com o magistrado ocorreu para evitar que a proposta fosse derrubada no STF.

Diante desse histórico, os pedidos de impeachment protocolados por Paulinho ganham um contexto revelador: os alvos são precisamente os desafetos de seu aliado no tribunal. O que o deputado apresenta como defesa da legalidade pode ser lido, com igual fundamento, como uma manobra de blindagem política dentro da mais alta corte do país.

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